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Daily Echo

Breaking habits

22
Abr18

Vi toda a gente mas não te vi

Monica Nobre

Às vezes ainda te vejo. Ainda te vejo e sinto que te falhei redondamente. Que fugi de quem me fazia mal porque sabia que um dia ia fazer algo de mal e não queria que sofresses. Fugi porque queria o que os outros tinham e achava que era a unica oportunidade de ter: alguém a quem chamar de pai. Dizer que estava com o meu pai. Achei que se fosse, que ficaria bem, porque todas as tristezas que tinha iriam passar. 

Não sabia que não ias ficar bem. Não sabia que o que eras para mim e o que era para ti. Sabes aquele pensamento "se pudesse voltar atrás?"... Se pudesse... 

Se pudesse, sentia a tua falta neste momento. Neste momento terias 99 anos e sei que provavelmente não viverias até agora, mas se pudesse voltar atrás, não ficarias sem mim, não ficaria sem ti, e não carregava este peso que me mata cada vez que penso em ti. 

 

Todas as crianças dizem "pára de me tratar como uma criança". Querem crescer rápido. Não me viste a crescer? Não me vias a debater a lei? A impor a minha opinião? Porque é que achaste que eu era uma criança, para não me contares a verdade? Porque tinhas de ser tão fechado? Não sabias que a necessidade de sentir que os meus pais gostavam de mim, iria enublar-me a mente? Não sabias que precisava que visses que afinal era realmente uma criança e precisava que desses um passo à frente? Que lutasses por mim? Que afinal não sabia o que era certo?...

 

Ainda te vejo e tens a cara entre as mãos e dizes "o que foste fazer...". Ainda te vejo e te oiço quando mais ninguém quer saber de ti. Ainda te vejo, ainda te amo e tenho o sonho de recuperar tudo o que conquistaste e destruiram. Tenho o sonho de recuperar a tua casa, a tua terra, a tua vida. 

 

Ainda te vejo com esses teus olhos azuis a brilhar para mim, sem precisares de dizeres uma palavra. Mas precisavas de dizer. Tinhas de ter dito. Eu precisava disso. 

 

Ainda te vejo e quando te vejo só me apetece chorar, o peito doi-me e és a única coisa que me arrependo na vida. Ai se o tempo voltasse atrás... 

Ainda te vejo...e se me ouvisses saberias que naquele dia, as nossas conversas silenciosas não funcionaram. Que não percebi porque choraste e nem te despediste de mim. Que não consegui controlar que iria ter "o meu pai" quando já te tinha. 

Ainda te vejo porque me culpo. Ainda te vejo porque te culpo. Porque não lutaste como devias e achavas que eu não era mais uma criança. 

Ainda te vejo...e ainda sou a criança que espera que apareças. 

28
Dez17

Eu caí da lua

Monica Nobre

Apercebi-me que caí da lua. Caí da lua e não consigo lá voltar. Fui descuidada e pouco responsável, não percebi os sinais de fumo e fui à descoberta porque o que queria era mais intenso do que a verdade. Fui e caí e nem apercebi que já tinha o que queria; mas aprendi da pior ou melhor maneira possível: caindo.

Olhei para a lua e pensei o que me faz escolher as pessoas. Escolher com quem me dou, com quem falo, quem fica e quem vai. Pensei e apercebi-me que gosto de pessoas orgulhosas. Orgulhosas delas próprias, do que fazem, que fazem as coisas porque lhes preenche apesar de todo o esforço. E pensei nas pessoas que deixei ir. Nas que não tinham orgulho ou não mostraram. Orgulho em mim, orgulho delas, orgulho da vida.

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 E nisto o tempo não volta atrás, não é possível subir de volta à lua e o melhor é contornar caminho. Posso não conseguir voltar para a lua mas posso estar mais perto dela. 

Os objetivos são como a lua: mesmo quando acontece algo que nos desvia para tão longe, não é preciso desistir. É preciso dar a volta e tentar o caminho mais longo, mas o que nos leva lá. Demore o tempo que demorar.

 

Não acho que precise/queira/acredite em resoluções de ano novo. Os objetivos não mudam com a virada do ano, não mudam depois da 12ª badalada, não mudam depois de comer 12 passas de rajada ou depois de aterrar no chão com o pé direito. 

Não deviamos esperar pelo natal para estar com a família, pelo exame para estudar ou pelo aniversário para dar um presente. 

 

Não vamos esperar. Vamos subir a um sitio alto? 

09
Dez17

Mágoas enterradas e regadas com vinho

Monica Nobre

Hoje podemos chorar algumas mágoas antigas que ainda estão presas na nossa garganta.

 

Não digo que tive uma vida dificil mas digo que tive uma vida diferente do resto das pessoas que conheço. Há tanta coisa que quero deitar para fora e nem sei por em palavras. Mágoas? 

Decidi andar para a frente. Deixei de chorar pelas mágoas dos outros e comecei a lutar pelos meus, porque quem está vivo e presente é que interessa.


Há um par de anos deixei de dar significado ao natal. Porque, para mim, natal era união de uma familia e alegria e não apenas uma festa em que temos de forçar um sorriso e conviver com uma indigestão porque a falsidade e uma perna de peru não se misturam. Para mim o natal deixou de ser, há alguns anos, natal.
Há algum tempo decidi que, apesar de ser criada como católica, não acreditava nem me identificava, então decidi que não queria nada com essa religião. Por alguns motivos, que para mim não faziam sentido, não festejo nenhum feriado católico nem de outra religião. 

Esses costumes já não eram muito "normais" quando estava com o meu avô, tanto que, só porque a minha avó me obrigou, batizei-me aos 9 anos.


Há dois anos, cá por casa, deixamos de festejar de todo, essas festividades. Fazemos o jantar com os avós dele como fazemos todas as semanas mas nada mais. E porque "cai~lhes mal" se não formos. "Porque é natal meninos, vá lá!". Percebo as pessoas que gostem do natal mas para mim, ao crescer, deixou de fazer sentido. Cá por casa, amamo-nos sempre e damos presentes quando nos apetece (ainda cumprimos aniversários).

O dia dos namorados não nos interessa mas comemoramos o dia em que oficialmente ficamos juntos com um passeio ou caminhada.
Comemos carne na Páscoa e não compramos amêndoas para ninguém.
Tentamos fugir de multidões em feriados que sabemos que as pessoas estão lá todas. 
No dia de todos os santos não vamos ao cemitério. Mas vamos jantar com os avós ainda vivos, todas as semanas.
No dia de natal começamos a tradição de irmos ao cinema. 
No dia de ano novo, escolhemos uma maratona de filmes, preparamos um jantar com vários petiscos, vestimos aquele fato-de-treino-que-parece-pijama e entramos noite fora com uma garrafa de vinho ao nosso lado. 
Uma vez por ano, arranjo bilhetes para um concerto e faço a minha tia, que está a 300km de mim, sair da terra e passamos um dia juntas.
Estas são as nossas tradições. Sem passas, sem cuecas azuis ou saltinhos das cadeiras. Não desejamos, tentamos fazer e fazemos logo, seja qual for o feriado que esteja a ser comemorado na altura.

Afastei as pessoas que me faziam chorar pelas mágoas delas. Há quem diga que sou fria. Eu digo que quero parar de sofrer. Eu digo que ninguém sabe o que foi, que estou cansada de falar disso, de pensar nisso. Mas penso e choro. Não guardo mágoa do que fizeram nem quero um pedido de desculpas mas gostava que tudo o que veio depois de me fazerem mal, tivesse sido correto. E não foi. 

Por isso, não acredito que existe um Deus, seja ele qual for. Não acredito quando alguém diz "não consigo mais". Posso dizer que tudo o que quis, consegui - fosse emprego, desporto, casa... onde eu queria estar eu estive. - Não acredito que as pessoas mudem. Acredito que as pessoas precisam de algo em que acreditar e quando precisam de mudar algo, que se adaptam, mas as pessoas não mudam. 

Gostava também de acreditar num mundo paralelo. Não que a minha vida tivesse sido diferente, porque não consigo imaginar-me a ter outra vida, mas que a vida de outros que gosto, tivesse sido melhor. 

Acredito que as pessoas conseguem fazer um esforço, mas precisam de uma razão, e isso entristece-me.

 

Mas esta é apenas mais uma mudança. Vamos enterrar o passado e esquecer as pessoas que nos fazem chorar pelas mágoas delas.

A quem festeja, um feliz natal. 
O meu desejo para vocês é que reflitam sobre quem realmente é importante na vossa vida e aproveitem essas pessoas. Usem e abusem da alegria. Os bens materiais ocupam espaço e criam pó.

 

26
Set17

Quando temos tudo, temos tudo a perder.

Monica Nobre

Depois do portão de ferro havia um quintal. Com chão de pedras brancas irregulares e uma escada. Sei que o quintal era grande o suficiente para fugir de ti e tu fingires que não me conseguias apanhar.

Eu sabia a bondade que havia em ti. Desde que nasci que cuidavas de mim e nunca precisaste de dizer nada e eu precisei que me dissesses.

Eu sei que eras amigo do outro rapaz que vivia conosco. Sei que a mãe dividiu a casa com a amiga porque não dava para pagar a tua escola e a minha. 

Lembro-me da mãe me deixar no carrinho a dormir porque estavas ali. E se estavas perto, podia adormecer descansada que mesmo que acordasse com o mundo em chamas, tu estarias a dar-me a mão.

Lembro-me de acordar e querer ir brincar contigo. Como sempre. E sei que o outro rapaz não deixou e obrigou-te a prender-me no carrinho. Eu vi o teu olhar de culpa e lembro-me tão bem desse olhar que ainda hoje me parte o coração. Olhares daquela maneira como se tivesses a pedir desculpa, pelo que ias fazer, para ganhares um amigo. Eu chamei por ti mas não queria que te sentisses culpado, queria que soubesses que percebo. E estar presa no carrinho não é nada confortável. Chamei-te para te dizer que não me intrometo enquanto brincares com ele. Mas prendeste-me. 

Vi-te afastar enquanto ele te levava aos empurrões. E quando te foste embora eu tentei soltar-me. 

Não sei quanto tempo estive a tentar sair mas lembro-me de olhar para cima e ver-te a desprender-me do raio do carrinho e a pedires desculpa como se tivesses feito a pior coisa do mundo. 

Desprendeste-me e saiste a correr. 

Fiquei no carrinho na mesma para não te meteres em trabalhos. Brinca lá à vontade com ele. 

Sei que foste o melhor irmão que podia haver. E que tens o coração do tamanho do mundo. 

Mas obrigada por me salvares sempre.

Por me teres desprendido.

Por pedires desculpa.

E por teres traduzido todo o episódio dos simpsons para mim, nessa noite, sem que te chateasses comigo porque estava a atrasar e não percebeste metade do episódio.

Eu sei que inventaste metade das falas, mas obrigada por isso. 

 

 

14
Set17

Livros e finais felizes

Monica Nobre

- ‘tás fazendo?

- A ver as estrelas. Porqué’que o pai e a mãe nã ficam?

- Nã sei. Eles é que sabem. Mas se ficassem ‘távas agora a ver as estrelas?

- Calhando. Nã sei.

Nunca foi preciso muito para um homem de 74 anos, de olhos azuis e sozinho rasgado, dar uma vida certa a uma criança de 5 anos. A cumplicidade que existia, as respostas secas, rápidas e certeiras que ele dava, fizeram dessa criança, uma mulher com certezas e liberdade em todos os aspetos.

Eu gostava da escola. Principalmente depois de saber ler. E adorava devorar livros e estórias de finais felizes. Porque as coisas precisam de terminar bem. Além disso, os livros eram os únicos que eram bons para mim. Os miúdos da minha idade decidiram que não viver com os pais era algo abominável. Que não sabiamos usar as coisas, nem nos vestir nem brincar. Algumas vezes a escola era horrível, mas os livros valiam a pena.

Quando chegava a casa, qualquer pensamento da escola não prevalecia. Ia brincar, desenhar, pintar, correr, andar de bicicleta e até andar descalça na terra enquanto o avô apanhava batatas ou fazia uma outra coisa que fazia crescer coisas para comermos. Mas por vezes tinha de partilhar com a minha pessoa favorita.

- Oh vô, porque é que não fizeste um prédio com tv por cabo e varanda?

- Queres varanda melhor qu’ésta? E fazia um prédio pra quê? Subir escadas?

- Nã sei… estão sempre a gozar comigo porque moro aqui e não tenho as mesmas coisas que eles.

- Qué’que nã tens? Passas fome? (- Não.) Passas frio? (-Não.) Nã tens com o que brincar? (- Tenho.) Então?

- ‘Sê cá! Eles deixam-me triste quando dizem que nã tenho nada.

- Faz-me lá uma lista do qu’éque nã tens.

- Então já tens a lista?

- Já.

Nunca me lembro do que os outros tinham e eu não. Até porque realmente não sabia qual era a diferença. Entrego-lhe a lista e o meu avô lê.

- Nã tens mais lápis de cor?

- Tenho. Mas tão pequeninos. Ah, e nã tenho autocolantes. Lá na escola eles tem autocolantes nos cadernos.

- Valha-me… ‘Tá bem. Amannhã vamos comprar lápis. Onde é que compro autocolantes?

- Nã sei. Calhando na papelaria também.

- Quando te faltar alguma coisa diz-me. Mas quero que faças outra lista. Quero saber o que tens que se perderes, te faça realmente falta.

Depois de jantar:

Lista pró vô

- Vô

- Pitucha

- Mano

- Casa

- Cisterna

- Damasqueiro

- Peixe, carne , comida e água

- bicicleta

- Livros que tenho

Quando entreguei a lista, o meu avô sorriu.

- Não tens nada que os outros não tenham.

***

Hoje quando penso se devo ou não comprar algo, penso no meu avô. Aliás em qualquer circunstância penso nele. E a frase mais importante da minha vida é:

When you have everything, you have everything to lose

E prevalence. Em tudo.

14
Set17

O que nos faz querer seguir em frente?

Monica Nobre

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Não sei o que nos faz levantar de manhã, mas levantamos e fazemos o que temos a fazer. Ninguém nos ensina a reagir ou a controlar o que está certo ou errado. Simplesmente, sabemos. O que nos faz querer seguir em frente?

Levantei-me e cheirou-me a chouriço frito. O avô já ta levantado. Será que já foi à praça? Olhei para o relógio que tinha na mesa de cabeceira e tentei perceber que horas eram; ainda não sabia ver as horas mas gostava de ver, de tempos em tempos, os ponteiros a mexer e de ouvir as pessoas dizerem "falta um quarto p'rás duas" como é que raio se via isso?
Levantei-me e estava o avô já a comer já o seu chouriço frito com ovos e pão e um copo de vinho. "Ainda não fui à praça, se queres, vai-te vestir e tirar a bicicleta". A minha frase mágica. Se me despachasse e fossemos rápidos ainda podíamos ir aos bolos. Apressei-me o máximo que consegui e peguei na bicicleta. Era um ritual. Não nos falávamos muito mas nos entendíamos muito bem. Acho que era porque o silêncio ser demasiado familiar que não nos preocupávamos a preenchê-lo com palavras. Ainda hoje sou assim, odeio meias palavras. Prefiro que me digam logo o que querem ou estão a pensar. A lenga-lenga dá-me nervos.
Tal como previ, praça significava bolos. É impressionante quando algo nos faz bem e queremos isso, levantamo-nos num ápice.

Chegamos a casa e a avó veio logo toda chateada. Não sei porque é que anda sempre chateada. Nunca sei se é comigo ou com o avô mas às vezes diz coisas que não percebo puto, como se me quisesse dizer alguma coisa. Quando lhe pergunto o que quer ela nunca me diz. Diz que são coisas de adultos. Que porra. Já disse que odeio essa treta das meias palavras?
Ela lá me deu a noticia que vou começar a escola, mesmo tendo cinco anos e que vou para a catequese. Que raio. "Vais aprender coisas e depois vamos à missa." Missa??? Que fiz eu? Juro que não fui eu que estraguei as roseiras.

Catequese. Olhem, digo-vos já que o nome engana. Fartam-se de falar de Jesus e Deus e isto e aquilo mas chateiam-se comigo quando pergunto porque. Isto soa-me aquele filme que o avô estava a ver e quando lhe perguntei sobre o que era, ele disse que era sobre tirarem os pensamentos de uma pessoa e por lá outros. Não me digam.

Vamos lá ver uma coisa. Não foi assim tão mau. Tirando a missa. Adormeci e a avó mandou-me uma cotovelada que fiquei com uma negra. Não devo ter sido só eu, não acredito nisso, então o padre fala como se tivesse posto alfarrobas na boca e ainda não as tivesse mastigado.
No final da missa, a avó mandou-me ir agradecer à catequista (?) (pelo quê?) e quando lá cheguei tivemos uma daquelas conversas que eu gosto de chamar conversinhas da xaxa.
Basicamente, ela perguntou-me porque não acreditava em Deus. Eu perguntei porque ela acreditava e despejou-me ali uma data de teorias que me fez doer a cabeça. Bem, ela disse-me que é Deus que nos dá força e vida e sem ele não estávamos aqui. (Hummm!)

O que achas que te faz levantar de manhã? - O cheiro a chouriço. Porque depois do chouriço vamos à praça e depois da praça passamos na pastelaria. Não, disse-me ela. É Deus.

 

Uns dias mais tarde, fui acordada pelo avô. És Deus? - O quê? Vá, eu não vou à praça, vai buscar a bicicleta e vai buscar os bolos que já estão pagos. Upa!
Adoro o avô. E não precisamos de mais conversas. Tentei falar-lhe de Deus mas ele disse-me logo para não lhe vir com a carochinha que ele dispensa essas coisas. Perguntou-me se acreditava. Disse que não. (E não! mas até gosto das musicas da catequese!)

Quando cheguei aos bolos, perguntei ao Hélder se ele acreditava e se era realmente Deus que o fazia levantar-se de manhã.
Ahahah a tua avó pôs-te na catequese, não foi? Já estava na hora. Não, não acredito. E se Deus me fizesse levantar de manhã ainda estava a dormir. Levanto-me porque tenho que me levantar e fazer os bolos. Senão, não comias bolos! E eu não vivia porque não ganhava nada.

E pronto. O que fazia levantar de manhã, não era Deus. Era o cheiro a chouriço frito.
E que saudades da pessoa que o comia. Todas as manhãs.

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