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Daily Echo

a minimal boost. Breaking habits!

Ter | 03.07.18

Calado, certo e seguro

Monica
Isto talvez seja uma carta de amor. Ou talvez não. Não sei muito bem o que define uma carta de amor.
 
Não me lembro quando te vi a primeira vez. Não me lembro das nossas primeiras palavras, de quando me fizeste sorrir pela primeira vez, mas lembro-me quando me apercebi que eras uma presença necessária na minha vida. Lembro-me apenas que me sentia bem com a tua presença. Faço alguma comparação entre ti e o primeiro homem da minha vida, o meu avô - ambos calados, ambos certos e ambos seguros. 
 
Posso não me lembrar de muitas coisas, com esta minha mente cheia de vento e despistada mas lembro-me quando senti que queria partir e não ia ter a tua presença. Lembro-me quando fingia que não era nada e alguém brilhou os olhos quando te viu e senti-me pequenina. Lembro-me da tua presença e ficarmos horas a olhar o mar em silêncio e sentir a falta que o meu avô me fazia - o que aquele silêncio carinhoso e compreensivo eram para mim - certo e seguro - e lembro-me que queria aquele silêncio contigo.
Lembro-me de quantas vezes a saudade me invadiu e quis ir embora. Lembro-me de outras tantas que disseste que ias comigo, e olhei para ti como se fosses louco - certo e seguro, mas louco.
 
É curioso como a mente nos prega partidas: lembro-me de todos momentos em que quis deitar tudo ao alto e partir, mas não me lembro quando te sentaste ao meu lado e ficaste. Não me lembro quando decidi ficar e parar de querer ir embora porque a minha alma inquieta farta-se dos lugares que não são meus, mas sei que onde estiveres vou conseguir ver em qualquer escuridão. 
 

daily-echo-peytons art

 

 
Não me lembro de confiar em alguém como confio em ti. Não me lembro de passar tanta coisa com alguém como passei contigo e ainda assim, continuar a não ter medo de ficar. Lembro-me quando te contei a minha escuridão e tu ficaste, dando uma luz que não me lembrava que tinha. 
 
Sei que afundo e que me isolo. Sei que consigo ser demasiado calada e ainda assim, certa e segura. Sei que só quero mostrar-te as coisas boas mas também sei que esticas a mão quando vês a luz a fugir de mim. Sei que por vezes não te quero arrastar para o abismo que estou a cair e tu deixas-me lá à ponta à espera que eu me safe sozinha, tal como faço sempre. No meio disto, deixas que me desenrasque sozinha, tal como consigo, e senão conseguir, dás-me a mão e lembras-me que não preciso de estar sozinha - que mesmo calado, estás atento e és certo e seguro. 
Não me lembro quando passaste para dentro da minha bolha, sem palavras e apenas com a tua presença. Mas parece que amo essas pessoas. Caladas, certas e seguras.
 
Há dias insuportáveis. Há dias que sinto a falta daquele velho marinheiro e, nesses dias, sinto a tua mão e a brisa do mar e silêncio. Porque mesmo no silêncio, és certo e estou segura.