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Daily Echo

a minimal boost. Breaking habits!

Qua | 01.08.18

A nossa casa

Monica

À medida que me situo e tento perceber onde estou, olho em volta e noto que existem coisas familiares: os azulejos azuis, a cisterna, a forma da casa. Mas está tudo diferente. 

Existe um portão e uma vedação à volta. Olho para as minhas mãos e parece que fui eu que as pus... tento perceber o que sinto à medida que estou a descobrir aquele local e sinto-me em casa. Apesar de tudo me parecer estranho é tudo tão familiar como se tivesse assistido a todas as mudanças que aquela casa sofreu. 

Reparo num alpendre e numa sombra adicional feita de madeira que cobre a entrada da casa e um lugar de estacionamento. Continuam gatos vadios por ali que provavelmente passam por debaixo do portão. Continuam os tanques antigos de cimento.

 

Entro em casa. As janelas grandes que dantes cobriam uma improvisada sala de estar e de jantar agora cobrem e dão luz a uma entrada com um enorme espelho e cabides ocupados por casacos desconhecidos e ainda assim, que não são estranhos. Ao fundo, onde morava uma mesa cheia de plantas mora agora um sofá, rodeado de plantas diferentes das normais e um armário a abarrotar de livros dos meus autores favoritos. Caminho para o que era um corredor pintado de branco com azulejos azuis e vejo quadros com fotografias tuas, com fotografias nossas, como se contasse uma história: o teu quarto é agora um quarto bem arranjado, muito simples, pintado de verde e a sala tornou-se outro quarto.

Não sei o que se passa mas passo os olhos em tudo a tentar lembrar-me de como era e porque está assim, tão diferente; como se tivesse sofrido alterações mas ainda assim como se a tua presença ainda ali estivesse. Noto que tudo foi colocado com amor, cada recordação, cada móvel, cada vaso de flores.

 Sigo fascinada como se tivesse estado ali a minha vida toda mas ao mesmo tempo como se não reconhecesse a casa.

Entro na cozinha e noto que não mudou de lugar mas é um espaço completamente diferente: maior, mais ampla, com o mesmo teto de madeira que montaste, mas com uma janela enorme para o milheiral do vizinho e com uma mesa posta para 3.

Vou ao meu antigo quarto e vejo um quarto de criança, de riscas cinzentas e brancas, pacifico e cheio de brinquedos espalhados. Será que estou na casa de outra pessoa? Mas a tua presença está ali, as nossas fotos estão nas paredes, a tua história, a minha história e reparo que onde a casa terminava com a casa de banho, é agora uma porta para outras divisões.

Vou a medo, à descoberta, mas com a sensação de conhecimento e que é suposto eu estar ali. Como se não conhecesse, apenas reconhecesse mas não acreditasse. Continuo e vejo uma sala enorme onde uma das paredes são portas de vidro e vejo onde era o nosso antigo pátio: onde tinhas as trepadeiras que reclamavas do trabalho de apanhar as folhas e descansavas à sua sombra. Onde construiste-me um baloiço, que depois do tio Julio lá ter partido a cabeça, só me deixavas andar sob supervisão tua. Esse pátio está agora de maneira diferente: meio replicado com as trepadeiras mas posicionado de maneira diferente, com um baloiço de rede e uma churrasqueira ao lado de uma mesa de madeira com um banco corrido. 

Depressa me apercebo que estou no sitio certo. É a nossa casa, avô, mas alguém a reconstruiu, alguém a refez maior e mais confortável. Vou imediatamente ao teu armazém, onde guardavas as nossas bicicletas e tudo o que apanhavas da terra. Percebo que existe e ao caminhar para lá vejo o resto do teu terreno, plantado como o mantinhas sempre, como um manto verde, até perder de vista e só ver as pontas das figueiras ao longe. Olho e vejo o A. com um menino ao colo. Não percebo o que se passa e quando lhe vou perguntar, ele vira-se e diz-me: "Estás finalmente em casa. O teu avô ia ficar orgulhoso".

 

Acordo. 

 

Acordo angustiada. A nossa casa. Um dia vou recuperar a nossa casa.