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Daily Echo

Breaking habits

14
Set17

O que nos faz querer seguir em frente?

Monica Nobre

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Não sei o que nos faz levantar de manhã, mas levantamos e fazemos o que temos a fazer. Ninguém nos ensina a reagir ou a controlar o que está certo ou errado. Simplesmente, sabemos. O que nos faz querer seguir em frente?

Levantei-me e cheirou-me a chouriço frito. O avô já ta levantado. Será que já foi à praça? Olhei para o relógio que tinha na mesa de cabeceira e tentei perceber que horas eram; ainda não sabia ver as horas mas gostava de ver, de tempos em tempos, os ponteiros a mexer e de ouvir as pessoas dizerem "falta um quarto p'rás duas" como é que raio se via isso?
Levantei-me e estava o avô já a comer já o seu chouriço frito com ovos e pão e um copo de vinho. "Ainda não fui à praça, se queres, vai-te vestir e tirar a bicicleta". A minha frase mágica. Se me despachasse e fossemos rápidos ainda podíamos ir aos bolos. Apressei-me o máximo que consegui e peguei na bicicleta. Era um ritual. Não nos falávamos muito mas nos entendíamos muito bem. Acho que era porque o silêncio ser demasiado familiar que não nos preocupávamos a preenchê-lo com palavras. Ainda hoje sou assim, odeio meias palavras. Prefiro que me digam logo o que querem ou estão a pensar. A lenga-lenga dá-me nervos.
Tal como previ, praça significava bolos. É impressionante quando algo nos faz bem e queremos isso, levantamo-nos num ápice.

Chegamos a casa e a avó veio logo toda chateada. Não sei porque é que anda sempre chateada. Nunca sei se é comigo ou com o avô mas às vezes diz coisas que não percebo puto, como se me quisesse dizer alguma coisa. Quando lhe pergunto o que quer ela nunca me diz. Diz que são coisas de adultos. Que porra. Já disse que odeio essa treta das meias palavras?
Ela lá me deu a noticia que vou começar a escola, mesmo tendo cinco anos e que vou para a catequese. Que raio. "Vais aprender coisas e depois vamos à missa." Missa??? Que fiz eu? Juro que não fui eu que estraguei as roseiras.

Catequese. Olhem, digo-vos já que o nome engana. Fartam-se de falar de Jesus e Deus e isto e aquilo mas chateiam-se comigo quando pergunto porque. Isto soa-me aquele filme que o avô estava a ver e quando lhe perguntei sobre o que era, ele disse que era sobre tirarem os pensamentos de uma pessoa e por lá outros. Não me digam.

Vamos lá ver uma coisa. Não foi assim tão mau. Tirando a missa. Adormeci e a avó mandou-me uma cotovelada que fiquei com uma negra. Não devo ter sido só eu, não acredito nisso, então o padre fala como se tivesse posto alfarrobas na boca e ainda não as tivesse mastigado.
No final da missa, a avó mandou-me ir agradecer à catequista (?) (pelo quê?) e quando lá cheguei tivemos uma daquelas conversas que eu gosto de chamar conversinhas da xaxa.
Basicamente, ela perguntou-me porque não acreditava em Deus. Eu perguntei porque ela acreditava e despejou-me ali uma data de teorias que me fez doer a cabeça. Bem, ela disse-me que é Deus que nos dá força e vida e sem ele não estávamos aqui. (Hummm!)

O que achas que te faz levantar de manhã? - O cheiro a chouriço. Porque depois do chouriço vamos à praça e depois da praça passamos na pastelaria. Não, disse-me ela. É Deus.

 

Uns dias mais tarde, fui acordada pelo avô. És Deus? - O quê? Vá, eu não vou à praça, vai buscar a bicicleta e vai buscar os bolos que já estão pagos. Upa!
Adoro o avô. E não precisamos de mais conversas. Tentei falar-lhe de Deus mas ele disse-me logo para não lhe vir com a carochinha que ele dispensa essas coisas. Perguntou-me se acreditava. Disse que não. (E não! mas até gosto das musicas da catequese!)

Quando cheguei aos bolos, perguntei ao Hélder se ele acreditava e se era realmente Deus que o fazia levantar-se de manhã.
Ahahah a tua avó pôs-te na catequese, não foi? Já estava na hora. Não, não acredito. E se Deus me fizesse levantar de manhã ainda estava a dormir. Levanto-me porque tenho que me levantar e fazer os bolos. Senão, não comias bolos! E eu não vivia porque não ganhava nada.

E pronto. O que fazia levantar de manhã, não era Deus. Era o cheiro a chouriço frito.
E que saudades da pessoa que o comia. Todas as manhãs.