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Daily Echo

Breaking habits

14
Set17

Livros e finais felizes

Monica Nobre

- ‘tás fazendo?

- A ver as estrelas. Porqué’que o pai e a mãe nã ficam?

- Nã sei. Eles é que sabem. Mas se ficassem ‘távas agora a ver as estrelas?

- Calhando. Nã sei.

Nunca foi preciso muito para um homem de 74 anos, de olhos azuis e sozinho rasgado, dar uma vida certa a uma criança de 5 anos. A cumplicidade que existia, as respostas secas, rápidas e certeiras que ele dava, fizeram dessa criança, uma mulher com certezas e liberdade em todos os aspetos.

Eu gostava da escola. Principalmente depois de saber ler. E adorava devorar livros e estórias de finais felizes. Porque as coisas precisam de terminar bem. Além disso, os livros eram os únicos que eram bons para mim. Os miúdos da minha idade decidiram que não viver com os pais era algo abominável. Que não sabiamos usar as coisas, nem nos vestir nem brincar. Algumas vezes a escola era horrível, mas os livros valiam a pena.

Quando chegava a casa, qualquer pensamento da escola não prevalecia. Ia brincar, desenhar, pintar, correr, andar de bicicleta e até andar descalça na terra enquanto o avô apanhava batatas ou fazia uma outra coisa que fazia crescer coisas para comermos. Mas por vezes tinha de partilhar com a minha pessoa favorita.

- Oh vô, porque é que não fizeste um prédio com tv por cabo e varanda?

- Queres varanda melhor qu’ésta? E fazia um prédio pra quê? Subir escadas?

- Nã sei… estão sempre a gozar comigo porque moro aqui e não tenho as mesmas coisas que eles.

- Qué’que nã tens? Passas fome? (- Não.) Passas frio? (-Não.) Nã tens com o que brincar? (- Tenho.) Então?

- ‘Sê cá! Eles deixam-me triste quando dizem que nã tenho nada.

- Faz-me lá uma lista do qu’éque nã tens.

- Então já tens a lista?

- Já.

Nunca me lembro do que os outros tinham e eu não. Até porque realmente não sabia qual era a diferença. Entrego-lhe a lista e o meu avô lê.

- Nã tens mais lápis de cor?

- Tenho. Mas tão pequeninos. Ah, e nã tenho autocolantes. Lá na escola eles tem autocolantes nos cadernos.

- Valha-me… ‘Tá bem. Amannhã vamos comprar lápis. Onde é que compro autocolantes?

- Nã sei. Calhando na papelaria também.

- Quando te faltar alguma coisa diz-me. Mas quero que faças outra lista. Quero saber o que tens que se perderes, te faça realmente falta.

Depois de jantar:

Lista pró vô

- Vô

- Pitucha

- Mano

- Casa

- Cisterna

- Damasqueiro

- Peixe, carne , comida e água

- bicicleta

- Livros que tenho

Quando entreguei a lista, o meu avô sorriu.

- Não tens nada que os outros não tenham.

***

Hoje quando penso se devo ou não comprar algo, penso no meu avô. Aliás em qualquer circunstância penso nele. E a frase mais importante da minha vida é:

When you have everything, you have everything to lose

E prevalence. Em tudo.