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Daily Echo

Breaking habits

10
Fev18

Chapters & Scenes - Realizado na década de 90

Monica Nobre
"Buongiorno Principessa!" -  Raras vezes uma expressão tirada de um filme italiano ficou tão conhecida nos quatro cantos do mundo. E se pronunciada de braços abertos por uma criança, a saltar de um armário com a carga de alegria que se vê no filho de Guido e Dora... é de derreter completamente.
 

Dica-de-Filme-A-vida-é-bela.jpg

 

 
Neste capitulo de Chapters & Scenes vamos falar de algo de foi escrito/realizado na década de 90, e não podia deixar de falar de um filme que nunca me canso de ver, mesmo depois de 40.000 visualizações.

Este filme a que roubámos a memória desta cena, todos sabem, chama-se A Vida é Bela (1997), e colocou o ator, realizador e argumentista Roberto Benigni debaixo dos holofotes internacionais.
Sabemos que nem tudo serão rosas, porque a frase do início serve de advertência - "Esta é uma história simples, mas não daquelas fáceis de contar. Como numa fábula, há tristeza, há deslumbramento e felicidade." -, mas custa-nos a acreditar, tamanha é a luminosidade da primeira metade de A Vida é Bela, em traços de burlesco mudo.
 
Está-se no ano de 1938, em Itália, e Guido, judeu, e com o intuito de montar uma livraria, vê o seu desejo vedado pela burocracia fascista. A solução que tem é então trabalhar como empregado de mesa num hotel, onde se cruza diariamente com uma professora que lhe vem tomar de assalto o coração... É ela a "principessa!", Dora (curiosidade: Nicoletta Braschi, a própria mulher de Benigni), que no dia do seu casamento com um fascista, pede a Guido para a raptar. Afinal, é a ele que tem amor, e é desse amor que nasce Joshua, o menino por quem o pai é capaz de sustentar a maior das ilusões, para o proteger dos horrores do Holocausto.
 
Esta história traz-nos uma mistura de emoções: proteção, amor, raiva, saudade e, ao mesmo tempo, alegria, numa época em que surge a guerra nazi e, sendo Guido judeu, a partida para um campo de concentração torna-se inevitável, e o seu único objetivo é não permitir que o filho perca a inocência perante o evidente cenário - é preciso mascarar a realidade diante dos seus olhos.
 
Então a guerra é tratada como um jogo, tudo conta como pontuação para que o filho de Guido, se mantenha escondido e livre dos horrores da guerra. A segunda parte do filme assinala assim a verdadeira demonstração de amor, que já não tem como base o romance mas a tragédia. Benigni é aqui o palhaço da tragédia, aliás a condição, em si, de um comediante num campo daqueles é um paradoxo, e Benigni realça-o ao homenagear Charlie Chaplin, com um número reconhecível de O Grande Ditador (1940).
Os motivos que levaram Roberto Benigni a realizar este filme não foram políticos ou históricos, embora ele e o coargumentista, Vincenzo Cerami, tenham tomado a precaução de contratar consultores do Centro de Documentação Judaica de Milão e feito visionamentos para grupos de judeus italianos, antes do lançamento. A sua vontade de contar uma história de amor e humanidade num contexto extremo, só precisou dessa confirmação, por assim dizer, científica, para se lançar na exibição internacional.
E o sucesso confirmou-se em Cannes, Varsóvia, Estados Unidos e mesmo Jerusalém, onde o filme mais tarde ganhou o prémio de "Melhor Experiência Judaica", no Festival de Jerusalém.
 
A grande inspiração humana por detrás de A Vida é Bela chama-se Rubino Romeo Salmonì (1920--2011). Foi a história deste judeu italiano apanhado pelos nazis em 1943, que chamou a atenção de Benigni, através do livro Ho sconfitto Hitler (em tradução literal, Derrotei Hitler), onde relata como sobreviveu a Auschwitz.
Antes de a passar para a escrita, Rubino partilhou com crianças e adolescentes a sua experiência, mas fê-lo da forma mais otimista possível, como o livro transparece, moldando-se a um tom de certa ironia. E terá sido o espírito forte, confiante - e não esquecido do riso - deste homem que sugeriu a possibilidade de se falar de amor na mais catastrófica das situações. Não é por acaso que o título do filme, aparentemente trivial, tem também uma origem muito contextualizada, tendo sido extraído da frase com que Leon Trotsky terminou o seu testamento, escrito no México:
"A vida é bela. Que as gerações futuras a libertem de todo o mal, da opressão e da violência, e a apreciem em toda a sua glória."
Pode haver maior otimismo?
 
Aproveita e vê as histórias que as outras meninas andam a contar.
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